M de muitas saudades.

26-01-2017

Era um dia atarefado... o telefone tocava muito, a porta abria e fechava, as pessoas faziam perguntas, a televisão tinha o volume para lá de alto. Ela não conseguia concentrar-se. Era demasiada confusão dentro e fora dela. Os pensamentos iam e vinham, nada a inspirava, tudo parecia virado do avesso. Embora ela tivesse felicidade dentro dela, a alegria teimava em esconder-se dos seus olhos.  

Decidida, ela levantou-se, vestiu o casaco e saiu. Com a porta atrás de si, não lhe apetecia estar ali nem em lado nenhum mas tinha que haver uma forma de resgatar tudo o que de bom e feliz viva dentro daquele peito. 

Ali parada, um grupo de rapazes e raparigas de cigarro numa mão e café na outra passou por ela e nenhum a olhou. Era exatamente assim que ela queria... ser invisível para que ninguém lhe perguntasse nada e ela não tivesse que responder coisa nenhuma.  

Olhou o relógio... ainda faltava tanto para chegar ao seu destino e ele não era físico, não era passível de ser contado pelas horas que passavam naqueles ponteiros. Optou por caminhar e, por entre portas fechadas e pessoas a seguirem as suas rotinas, passou por uma porta entreaberta. Lá de dentro saiam vozes, risos, até um certo calor que, naquele dia que não era invernoso mas deixava muito a desejar ao início da primavera, era muito bem-vindo. Nasceu, dentro dela, uma certa curiosidade... Isto de entrar assim na "casa" dos outros não era tarefa fácil mas não havia nada como arriscar. 

 Passaram 10 meses... 

Nem sempre foi fácil viver ali. Havia muito com o que lidar, muito que fazer, muitas horas dedicadas a aprender e a melhorar... Mas, 10 meses depois, estava na hora dela "voar". Na estadia daquela "casa", ela tinha conhecido muitas pessoas, acertou os ponteiros das suas horas e os seus olhos voltaram a ganhar vida. Depois de tantos dias ali, tantos momentos vividos, ela tinha a certeza que o mundo estava onde deveria estar, os dias corriam como deveriam correr e que tudo acontecia por uma razão. 

Na sua última descida das escadas, no último acesso às suas notas, ela percebeu... ela voltava a ser ela, tal e qual como se lembrava de se sentir antes do mundo dar uma volta. A culpa era dela, da sua luta, da sua vontade e também das vozes e do calor lá dentro daquele sítio. E, embora ela fosse "voar" para o seu destino, ela tinha a certeza que aquela paragem que parecia tão aleatória, 10 meses antes, era uma paragem obrigatória na sua vida.  

Entregou a chave, despediu-se das vozes, voltou a vestir o casaco e, desta vez, não havia frio que lhe gelasse a alma. Bateu a porta. Ficou ali a olhar... as lágrimas corriam rosto abaixo mas não eram de tristeza. Era como se de uma escadaria se tratasse,,, Ela tinha conseguido subir escada a escada, devagarinho, por vezes até de coração dormente, outras vezes sem sentir nada, outras tantas aos pulinhos... mas a escadaria, longa, difícil e tortuosa tornava-se menos difícil de encarar... A resistência à dor era outra. Mas era ainda mais do que isso... era orgulho... a porta estava ali... dividia-a do passado e do futuro e tudo o que ela conseguia sentir era orgulho porque tinha conseguido, porque deixava lá um bocadinho de si nas memórias construídas e trazia os sonhos vivos de volta ao coração, sem nunca ter deixado de ser fiél a si mesma, sem maldades, sem interesses, sem, em momento algum, defraudar o que lhe alguém especial lhe tinha ensinado desde pequenina. 

Deu um passo em frente... voltou a olhar em volta, sorriu e seguiu caminho.

Ela tinha a vida toda pela frente e, embora ainda muitos dias maus estivessem por acontecer, nada lhe tiraria a determinação de amar o mundo, a vida, as pessoas, a profissão e a si mesma.