Bolo Rei, leite e obrigada. 

11-01-2017

"Demorei muito tempo a perceber tudo, a sentir-ne grata novamente, como naquele dia que entreguei bolo rei e leite aos senhores que dormiam na minha rua, só com uma manta, na noite gélida de 11 de janeiro de 2014."

Em 2014, desci no elevador com uma caixa de bolo rei e um pacote de leite, numa noite para lá de gelada, e vim para casa de lágrimas nos olhos e a sentir que tinha que agradecer. Lembro-me com toda a nitidez que agradeci. Entrei em casa e a minha mamã atirou: "então filha? Eles ficaram felizes? Ainda tenho aqui pão de ló que depois podes levar."
Olhei para ela e tive a certeza que tinha sido ela que tinha criado em mim aquela sensação de que o mundo podia ser um lugar melhor, bastava que eu fizesse a minha parte. Aqueles olhos brilhantes atrás dos óculos que tantas vezes ela perguntava "isto fica-me bem?", só para que eu lhe respondesse "oh mãe, claro!", como se ela fosse eterna, como se eu não tivesse que dizer sempre o quão bonita por dentro e por fora ela é, como se ela tivesse que adivinhar o quanto eu a admirava e amava.
Naquele dia, sei que virei costas da porta da cozinha e disse baixinho "obrigada por ela, obrigada pelo quentinho, obrigada por isto".
4 dias depois achei que naquela noite, no quentinho da nossa casa, não tinha agradecido o suficiente porque Deus deu-me a maior das provações. Em muitos momentos, dentro daquele hospital, pensei que não tinha sido suficientemente grata, que não tinha dito vezes suficientes tudo o que ela significava, que estava a ser castigada por todas as vezes que não comi a sopa, que não tirei excelentes nos testes e por ter desistido de Direito, 3 anos depois de o ter começado.
Demorei muito tempo a perceber tudo, a sentir-ne grata novamente, como naquele dia que entreguei bolo rei e leite aos senhores que dormiam na minha rua, só com uma manta, na noite gélida de 11 de janeiro de 2014.
Quase 3 anos depois de a ter perdido para um mundo onde só existem pessoas boas, onde toda a gente é grata, onde a beleza de tudo vem de dentro de nós, tenho aquele nó dentro de mim e à vezes as lágrimas correm porque tenho saudades, porque fico triste por não partilhar as conquistas com ela e deitar a cabeça no seu colo nas derrotas.
No entanto, há algo que sinto, acima de tudo, e devo-o a ela, à minha mãe, sou grata, muito grata por tudo o que sou e tenho. E neste verbo ter não cabem objetos, só sentimentos.
Obrigada minha mamã. Amo-te!