Carnaval.

13-02-2017

Sobre o Carnaval:
Eu era pequenina. Mas só de tamanho porque a minha mente memorizava tudo como gente grande. Acordava a meio da noite e lá estava a minha mãe com a TV ligada, colada ao ecrã e com um sorriso rasgado nos lábios. O volume estava tão mas tão baixinho que quase não dava para ouvir a música. No entanto, ela cantarolava o samba-enredo do ano anterior, os olhos estavam iluminados e torcia para que a Estação Primeira de Mangueira ganhasse.
Lembro-me que todos os anos ela dizia "ah filha, o desfile da minha Mangueira foi tão bonito! Não hei-de morrer sem ir ao Carnaval ver a minha Mangueira ao vivo!". Ela tinha algo no olhar... Um amor sem explicação, uma conexão sem razão. (Tal e qual como a que eu sinto com a Índia.)
A minha mãe era portuguesa, tirsense de gema, mas a alma dela morava no meio do samba, da alegria, da boa disposição e da simplicidade da vida, mesmo quando naquelas noites ela não tivesse muitos motivos para sorrir ou as preocupações lhe aturdissem a mente. Este amor existia talvez muito por culpa da "malta de bom coração", como ela dizia, ter nascido no Brasil. O Washington, o Ladinho, o Jarbas e muitos mais que, ou não me lembro do nome deles ou não cheguei a conhecê-los.
Nesta altura do Carnaval, sempre que ouço samba, vejo uma "mulhé mais pelada" ou me falam em desfiles carnavalescos, lembro-me sempre dela ali sentada só com a luz da televisão pequenina que me permitia vê-la mas com a alma dela lá longe, a sentir-se como se estivesse no sambódromo do Rio de Janeiro.
Sorrio sozinha... Foi ela que me ensinou a sambar... Mas muito mais que isso, foi ela que me ensinou a ter esta alegria dentro de mim! :)
<3
#Carnavalémangueira