A esquila disse, 'tá dito!

06-03-2017

Como a maioria sabe, sou jornalista. Trabalho num jornal diário que desenvolveu um projeto online, na área do audiovisual, muito bem pensado e estruturado.

Claro que os jornais são importantes. Para quem gosta de ler e de sentir o papel nas mãos, o desfolhar as folhas, o cheiro da tinta, o papel é algo que nunca desilude. Sinto isso com os jornais, com os livros, com os bilhetinhos... e por aí fora. Porém, também sabemos que, com a velocidade a que o mundo "corre", quando queremos saber algo, acedemos ao smartphone et voilá, lá estão as notícias, as fofocas, as últimas tendências e até a estupidez humana. Tudo à distância de um duplo clique.

Tal como na televisão, este projeto tem rubricas que, de quando em vez, como jornalista, tenho o prazer, a honra, de ser pivot nelas. Não temos como princípio ser um projeto televisivo online. Não! No entanto, consideramos que é preciso humanizar os trabalhos, as notícias, fazer com que aquele que nos vê e ouve sinta que há ali alguém dedicado aquilo. Isto vale para o bom e para o mau, obviamente. A meu ver, considero importante este "aparecer" existir. Quem escreve, assina, diz que aquilo que está ali escrito foi fruto do trabalho, do esforço, do empenho e dedicação de quem assinou. É o "aparecer" quem escreve.

Quem "aparece" está também a dar a cara pelo órgão de comunicação social, pelo seu trabalho, está a correr o "risco" de estar exposto mas também está a saborear o dizer ao mundo, com voz e expressão, que aquilo que está a ser trabalhado por si e pela sua equipa.

Eu não concordo com o aparecer por aparecer. Aliás, nesta profissão, enquanto trabalhamos, enquanto somos pivots, enquanto apresentamos algo, analisamos e introduzimos ideias para que o espectador pense e analise, não se trata de aparecer. Trata-se de trabalhar. A rubrica onde "apareço", de vez em quando, é isso mesmo que significa para mim. O meu dever é informar e trabalhar em equipa, defender uma camisola e, no fim, a bem ou a mal, dizer-lhes e dizer-me "bom trabalho!".

Bem, mas o aparecer leva-me a outro verbo que está intimamente associado: o julgar.

Desengane-se aquele que acha que eu penso que tudo é "rosa e belo" e que julga quem é mau. Não! Na minha opinião, o ser humano é julgador, é um ser naturalmente apto ao julgamento, muitas das vezes superficial, outras tantas com certo conhecimento.

Eu julgo. A senhora aparece na televisão e não tem dentes, convenhamos... eu digo, à mesa de jantar, aos meus "oh minha senhora, que balizas!". Não sei se a senhora optou ou não por ser desdentada mas... naquela fracção de segundos, julgo e não penso mais nisso. E como este exemplo tantos outros...

O bom deste mundo é que eu posso gostar do que quero, ver e ouvir quem quero, à hora que bem me apetecer. No entanto, na minha percepção, nem sempre devo dizer o que quero. Devo dizer o que me e vos acrescenta... e para o bem.

Obviamente, se alguém de quem gosto muito me aparecer em prantos menos bonitos, eu digo, mas digo com respeito, ainda que com sinceridade, tal como aceito que me digam a mim. E, no fim, agradeço e sorrio. Sei que só assim, com críticas construtivas é que vou evoluir enquanto pessoa e profissional.

Pois bem, o que me leva a escrever este post não é, de forma alguma, uma queixa ou um desabafo. Não! Isto é uma "análise" até caricata do que me aconteceu e, por outro lado, uma reflexão do que milhares de pessoas passam, diariamente, por coisas importantes e outras menos importantes.

Há umas semanas tive um episódio da minha vida o qual carinhosamente gosto de lhe chamar de "Saga Malvada".

Um senhor com muita, muita pressa viu a minha foto na partilha feita no FB do jornal, juntamente com o título que destacava uma das notícias que eu, naquela rubrica, estava a dar. O senhor tinha mesmo que abandonar (porque tinha uma consulta às 5!) - ironia -, decidiu assumir que eu era a "malvada da mulher que tinha morto os dois filhos e que devia arder no inferno", com o consentimento do mai'novo dele e de outra senhora que devia estar na segurança social há 3 horas e, mesmo no momento em que ela lia o comentário do senhor-malvado, ia abrir o vídeo para confirmar mas, entretanto chamaram a senha dela (16852) e a senhora não teve tempo de ver mas assentiu ao  outro senhor que "a mãe que matou os dois filhos era aquela malvada de branco, sim senhora!", com a veemência de quem conhecia a "malvada" quase que pessoalmente. Ora... esta saga deu para rir. Durante uns dias, cada vez que falava naquilo, ria lágrimas e fazia abdominais.

Entretanto, e porque eu vou tendo comentários de amigos, família, conhecidos, que me inspiram, me fazem querer fazer melhor e me motivam, ou simplesmente porque há quem comente com críticas construtivas e gostamos de ver o que as pessoas acharam da edição das peças, da forma como contamos as histórias, das entrevistas que fazemos e até do que acham da nossa prestação para sabermos se nos devemos dedicar à pesca ou devemos seguir em frente com o sonho (estou a brincar, obviamente!) entre uma vez e outra, lá vou eu ver os comentários dos vídeos onde "dei o litro".

Qual não é o meu espanto quando me aparece um senhor que, com interrogação quase até de preocupação no seu comentário (not!), pergunta "Oh jovem o que recebe através de recibo verde ainda não lhe dá para colocar aparelho nos dentes?;)". 

Sim, ele pôs o smile a piscar o olho do género, vá-lá-estou-a-ser-teu-amiguito-ao-te-dizer-para-ires-arranjar-a-cremalheira. Aqui a malvada de cremalheira torta fartou-se de rir. À semelhança da história do malvado, a malvada de cremalheira torta partilhou um print screen do comentário e pôs a sua rede de amigos, embora igualmente estupefacta com aquele comentário, também a rir de tamanha observação. Maaaaaaaaas... CALMA!!! Que afinal isto não fica por aqui... xD

O meu editor chega de manhã à redacção e diz-me que tinha algo para me mostrar.

Passo a citar: Um tweet de um rapazinho que retweetou a partilha da mesma rubrica que o meu amiguinho-da-cremalheira, com a minha cremalheira em grande destaque, e disse "mas o quê que um esquilo tem a ver com o homem morto?".

Eu rebolei de rir. Sou a primeira a rir de mim... E a verdade é que este foi mesmo original, chamou-me de esquilo. Aliás, até deveria ser Senhora Esquila! (looooool)

Dissequemos, portanto:

Não me atrapalha que me chamem de esquilo, que achem que tenho que ir pôr um aparelho nos dentes, que considerem os meus olhos malvados e a minha posição dos lábios uma causa da minha malvadez. Não me incomoda nada. Isso não diz nada de mim.

Quando trabalhava num canal televisivo tinha uma senhora professora que dizia que eu gesticulava demasiado e que não sabia falar. Ela ia ver TODOS os meus programas e depois ia para as redes sociais comentar negativamente, dizer que eu devia estar em casa e não a apresentar programas. Não me incomodava a opinião da senhora. É certo que tinha muito que aprender, alguns "tiques" para aprimorar, mas não me incomodava o "veneno que ela destilava" em frente ao pc porque eu sabia, sentia, que nada do que ela dizia traduzia o que eu era enquanto profissional. 

Os meus amigos dizem que ser "famoso" tem destas coisas. O meu editor diz que ao falarem de mim significa que estou a "entrar" neste mundo. O meu namorado manda-me ir apanhar bolotas para o jantar. Eu rio-me.

É verdade que tenho que pôr aparelho. O senhor-amiguito-e-conselheiro até que não falhou de todo. Quanto ao resto que ele disse acerca de recibos verdes e afins nem vou comentar. É como se ele estivesse a jogar à batalha naval e tivesse, ele próprio, afundado todos os seus navios com os seus próprios tiros. lololol

Tudo isto para dizer 3 coisas que, depois desta análise intensa, me ocorrem:

1) Quando eu trabalhava num call center, 8 horas por dia, fui chamada de tudo. Ouvi, às vezes quis responder, outras vezes apeteceu-me desligar, outras deitaram-me mesmo a baixo... mas ensinaram-me a fazer uma separação daquilo que interessa mesmo. Hoje, apesar de não responder porque não acho bonito, porque não me vou dar ao trabalho e porque são "ofensas fofinhas", sinto-me tão em paz com isto que só tenho a agradecer ao call center. Aqui está a minha lição de lá ter trabalhado!

2) Mesmo não respondendo, os meus amigos, aqueles que estão sempre lá, e as pessoas que me conhecem, não conseguem ficar quietos. Então, decidiram responder e fizeram-me rir às lágrimas com as suas palavras coloquiais e, ao mesmo tempo, sem papas na língua. Valorizaram o meu trabalho. Fazem-no sempre. Dizem que me saio bem, que tenho voz de jornalista, que não sou nenhum trambolho e que lhes apetece bolotas para o jantar. Eu rio. Rio às lágrimas. Isto tornou-se numa história hilariantemente estúpida. Rio e agradeço. As pessoas apoiam-me e eu nem sei como lhes agradecer esse apoio. <3

3) O que leva as pessoas a comentarem e dizerem estas coisas? Nem falo do meu caso... Falo da agressividade patente nos comentários das redes sociais. Gratuitos. Fáceis de escrever. Por vezes carregadinhos de erros ortográficos e de pontuação. Comentários que incitam a violência, baixos, alguns até de cariz sexual, racistas, xenófobos. Eu sei que vivemos num mundo no qual habitam pessoas assim mas porque raio elas agora saem "à rua" a gritarem aos 7 ventos aquilo que antigamente ainda havia vergonha para se admitir?

É que, meus amigos, há vergonha boa. Um racista, se tiver vergonha de dizer que é racista, por medo do que as outras pessoas possam pensar, é bom! Essa vergonha faz-me acreditar que ainda há pessoas que diferenciam o bem do mal. O problema é quando as pessoas dizem o que querem e não se interessam acerca dos efeitos que isso tem nos outros, na sociedade, na forma de as pessoas lidarem e reagirem umas com as outras. Onde é que isto vai parar?

Pois bem, em tom de conclusão, a esquila quer dizer obrigada aqueles que acharam que tinham que "defender". A esquila é tão mas tão grata por ter tanta gente que torce por ela! Pessoas até que não lhe são tão próximas mas que nunca deixam de dizer um "boa! é assim mesmo!" ou um "tens que melhorar isto". Para vocês, levo-vos um monte de bolotas na minha bolsinha para fazermos um piquenique. <3 Aos outros, se continuarem com aconselhamentos sobre a minha imagem, por favor, sejam criativos... digam-me coisas que eu não saiba, que me façam continuar a rebolar a rir e se traduzam em momentos hilariantes do meu dia. ;) 

Sabem porquê? Porque a Dona Esquila disse, e 'tá dito!

#cenasdasena #beingjournalist